O POETA EM DIA DE VOSIVERA

O POETA EM DIA DE VOSIVERA
"O nome dos poetas populares deveriam estar na boca do povo." Cordelista Antônio Vieira.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A morte do jumento querido





A morte do jumento querido

Contaram no meu ouvido
Que não vale comentar
Desgraceira dum menino
Que vivia aprontar
Falo sério, sou bom macho
Eu não sou de inventar

Zézin era muito arteiro
Mijava lá no açude
Cagava lá no chiqueiro
Comia a bola de gude
Roubado minhaeiro
Assim fazia sua virtude

Sempre desacreditado
Vivia um tanto feliz
Sorria um tanto desvairado
Duma vida por um triz
Seu jumento, o Inácio
Danou-se ensinar com giz.

As letras do alfabeto
Como ensina pra gente
A soletrar e as regras
Cansativo e bem pungente.
Até Inácio dormir
Uma loucura ciente.

Passados oitenta dias
O animal escrevia
Não só o nome Inácio
Mas, também trechos da bíblia
Os salmos e apocalipse
E tudo mais que ele lia.

O Zézim com muito medo
De roubarem seu jumento
Levou pro mato adentro
E lambuzou de excremento
Sendo assim repulsivo,
Feio, podre e xexelento.

O caçador Osmar Tosta
Embreado mata adentro
Ouviu um relincho forte
Ao lado do pé de coentro
Viu um animal estranho
E disse: — Nesse mato não entro!

Engatilhou e apontou

Inácio logo escreveu:
— Não me mate, por favor!
Osmar de pronto se benzeu
De corpo arrepiado
Paço atrais ele deu

Zézim chega e se depara
Com caçador aluado
E diz que: — O animal,
Não serve pra ser alado
Pois é chucro e malvado
E aqui ele é castigado!

Osmar corta-o dizendo:
— Mas o bicho escreveu
Com uma vara na boca
Nunca isso me aconteceu
Jamais bicho vou matar!
E serei jagunço seu.

Inácio logo escreve:
— Diga pro povo que eu
Sou o cristo encarnado
E parem ser fariseu
Que se cubram de excremento
E diga que assim sou eu!


 O Zézim indignado
Da exposição do jumento
O questiona dizendo:
— Encherão de questionamento
Quem é você, onde veio?
Te farão de elemento

E quando souber que você
É jumento e não divino
Vão querer é revidar
E meter você no pino
Que nem Cristo crucificado
Então vamos sair de fino!

O jumento empacado
Com sinais, não ia não
Queria dizer pro povo
Jumento não é caminhão
Pois, sentem dor nas costas
E sofre como cristão.

Ele descreve história
Tempo que era província
Portugueses não gostavam
Pois jumento não é delicia
Para os olhos e ruas
Queriam como Galícia. 

Com animais garbosos
Fortes como o camelo
Bahia ao Ceará; rápido
Levar couro e caramelo
E tudo mais o que quiser
Além do sarraceno pelo.

Nem no meio do caminho
Os animais agüentou
No trajeto eles morreram
Não se sabe que matou
Cansaço, calor ou preguiça
Jumento sim, que ficou.

Logo chega procissão
Velho, moça e aleijado
Mais de duas mil pessoas
Procura santo achado
Escondido mata adentro
Vê animal acuado.

Ao lado do pé de coentro
Povo cai na gargalhada
Ao ver bicho xexelento
— Isso é uma galhofada!
Gritam os descontrolados.
— Zézim deve tomar porrada!


Os ânimos exaltados

Osmar da um tiro pro alto
E pede um pouco de calma
Inácio da um salto
Do divino bicho Inácio
Que achavam ser um falso.
 
 Pro povo ele escreve:
— Vim na terra profanar
Que nesse mundo de guerra
Nada vai muito durar 
Pois se cultiva o ódio
O ódio ira te pegar

A muito tempo atrais
Conhece uma menina
Que gostava de pamonha
e sua mãe dona Solvina
Pra castigar a mocinha
Deu-lhe de beber estricnina

Esta doente má mãe
Só fez isso por maldade
Que a tv lhe meteu
Na tv não tem lealdade
Alienação feroz
E dânisse humanidade

Antes fui belo homem
Hoje jumento sou
A raça não é humana
E sim, a raça é viva
Planta, inseto, vaca
Peso na terra não faltou!

O que quero que entendam
É sobre a importância
Não sobre coisas complexas
Como mal efeito da anciã
Que atrasa o ser pensante
Por mais que tenha calculância.

Por horas o bom jumento
Falou bem prodigioso 
Do homem caucasiano
Que lida habilidoso
Das diversas dificuldades
E ainda assim religioso.

No ápse da oratória
Quando todo o segredo
Da vida e filosófica
Morte e todo o medo
Do homem e de todos os seres
Inácio vai ao degredo.

Da morte inevitável
De um padre calculista
Que lançou uma pedra
Povo ainda otimista
Ressuscitar para vida.
E nada; Matam o padre sulista

Em um mesmo dia morreu
Um padre e o jumento
Com passar do tempo
Os dois viram o alento
Do povo ignorante
Que vivem sem argumento.

Acróstico

Alberto é seu longo nome
Lá de Salvador veio ele
Bebi que nem o um cão
Elétrico como trovão
Refém da poesia mui crítica
Tem poesia bastante cínica
Oratória é o grande forte.

Limita esta calado
Intransigente pra falsos
Maldoso com abitolado
Adora ouvir novos causos!






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